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quinta-feira, 26 de abril de 2012

Poeta: Mário de Sá Carneiro - Quase



 Um pouco mais de sol - eu era brasa,
 Um pouco mais de azul - eu era além.
 Para atingir, faltou-me um golpe de asa...

 Se ao menos eu permanecesse aquém...
 Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
 Num grande mar enganador de espuma;
 E o grande sonho despertado em bruma,
 O grande sonho - ó dor! - quase vivido...
 Quase o amor, quase o triunfo e a chama,

 Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
 Mas na minha alma tudo se derrama...
 Entanto nada foi só ilusão!
 De tudo houve um começo... e tudo errou...
 - Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
 Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,

 Asa que se enlaçou mas não voou...
 Momentos de alma que, desbaratei...
 Templos aonde nunca pus um altar...
 Rios que perdi sem os levar ao mar...
 Ânsias que foram mas que não fixei...
 Se me vagueio, encontro só indícios...

 Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
 E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
 Puseram grades sobre os precipícios...
 Num ímpeto difuso de quebranto,
 Tudo encetei e nada possuí...
 Hoje, de mim, só resta o desencanto

 Das coisas que beijei mas não vivi...
 Um pouco mais de sol - e fora brasa,
 Um pouco mais de azul - e fora além.
 Para atingir faltou-me um golpe de asa...
 Se ao menos eu permanecesse aquém...

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Poeta - Vicente Cariri - Da Poesia


A poesia é o carnaval e o funeral da vida,
a dispersão febril das cinzas,
o aspergir sutil da consciência,
galáctica e puntual,
da metrópole ou da periferia,
a poesia é o sinal que reluz e ressuscita.

Contida, panfletária, flama e aço,
é o laço que prende e solta a asa,
e engole a paisagem imensa,
asfáltica, amazônica, essencial,
e sobrevive,e cresce e intumesce,
pulsando o imaginário sem tempo,
sonolenta, ácida e fugidia.

Poesia é o pão da alma,
é o elo humano do idílico, do esotérico.

Nela cabe o mundo, o fungo do cadáver,
a aura febril do recém-nascido,
a chave excitante da viagem erótica da palavra e do enigma.

A poesia ara o campo, reflete a senda e sua origem, semeia.

É um ir e voltar, sempre, como nuvem,
um escuro necessário e pesado sobre a luz do dia
ou um raio, um ritual sobre o desejo esparramado
e incontido dentro dela.

Irrequieta, arquiteta das emoções primeiras, das primazias,
confluência dos encontros e caminhos,
é arma que brande e tece a rima de novos caminhos,
peita a hipocrisia, a História e os sistemas.

É heresia a poesia, concreta, do dia-a-dia sombrio,
exala o sêmen da criação e o abortar da palavra não dita,
e cinge o nó que revigora a alma que escreve e ama.

Nela cabe tudo e extravasa e tudo pulveriza
Nela, lembrança e o pó do tempo tomam corpo sobre a mesa.
Nada cala um poema,
serena, a poesia clama a chama,
incendeia, é arma que atira e acorda a realidade
esdrúxula, descontrolada e sem lapso,
ao tempo engole e é compasso, é colapso.

E a alma do poeta é grande, elástica,
das divagações exóticas da sílaba aos rumores
eróticos da palavra.

A ele, poeta verdadeiro, não importa o tempo
nem a fantasia do sucesso,
poesia é sempre avesso,
nem sempre verso,
é a inquietação ante ao ultraje.

Resoluta e destra,
é santa ou puta, porém sempre certa,
é a hipocrisia das sensações,
caudal de lembranças que o dinheiro não compra
e não acaba,
é a grande vaga,
que varre a tentação, dá sobrevida,
e a cada passo, é liberdade ou ladainha sem fim
para os conformados.

Poetas, os casaldáligas, os thiagos, os operários,
provocadores da construção de um novo tempo,
de um novo ritmo que todos dancem,
onde liberdade é ver-se outro no espelho,
ser parte da paisagem sem ser paisagem,
ter o pé na alma e no limo,
sem perder a brancura da viagem,
ou a escureza da sensação que mostra o caminho da luz que,
se não clareia, transforma.

(Vicente Cariri, Alma Assoreada, 2007)