Quando o caminhão de mudanças entra na Rua do Brejo, a gurizada já está aguardando ansiosa. Desde que o pai do Chico foi transferido e a família teve que se mudar, eles esperam que venha outro menino para ocupar a vaga no meio-campo do time de futebol. Durante seis meses, amargaram a perda do craque, e a cada pessoa que vinha conhecre a casa amarela, de janelas azuis e cerca branca, renovava as suas esperanças.
- Por que só vêm os adultos para olhar a casa? Por acaso, as cruanças não vão se mudar também? - diz o Guri, desconsolado. Mas agora o caminhão está chegando e a sorte está lançada.
Parados do outro lado da rua, observam com atenção a movimentação dos carregadores. Primeiro, retiram as caixas de papelão pardo e, à medida que descarregam, começam a aparecer os móveis. Neste momento, o fundo de uma caixa cede quando é levantada do chão, e uma pilha de livros cai em cascata. Para surpresa de todos, uma bola ofcial de futibol sai quicando preguiçosamente, enquanto o homem atrapalhado não sabe o que fazer. A gurizada vibra, pois verificam que já têm o boleiro de que precisam.
Um carro estaciona próximo e dele sai uma figura miúda com um boné afundado até os olhos, vestindo um uniforme do Grêmio Futibol Porto Alegrense. A camiseta listrada em azul, preto e branco, as meias até o joelho e o calção folgado deixam as pernas atléticas à mostra. Para em frente a eles e, com um movimento suave, retira o boné, soltan do uma farta cabeleira castanha. Uma constatação assustadora toma conta dos meninos, é uma guria.
- Oi! Meu nome é pamdora, com eme. Minha mãe escolheu Pámela, por causa de um seriado da TV, e meu pai queria Dora, por causa da sua tia Dorinha. Por isso me batizaram de pámela Dora. Prefiro que chamem de Pamdora, é mais curto e fui eu que inventei...
E seguiu falando sem parar por mais alguns minutos, sem que os meninos boquiabertos esboçassem qualquer reação. Só silenciou quando fez pergunta fatídica.
- Vocês têm um time de futibol? Posso jogar?
- Sim.
- Não.
Os meninos se contradizem, pois não sabem como fazer. Eles têm um time, mas certamente não querem que uma menina jogue com eles, a dificuldade é como explicar isto. Como não chegam a uma conclusão, instintivamente olham para o Guri. Mas ele está absorto, observando o homem arrumar os livros dentro da caixa remontada.
- O Guri o que tu achas, Guri? - perguntaram quase em coro.
- Claro - respondeu ele, distraído. - Sem problema.
E, como se acordasse de um transe vê rosto sardento da menina, olhos cor de caramelo, o sorriso de aparelho nos dentes e lábios rosados. Um perfume delicado de água de colônia. Sente um frio na barriga, quando percebe o que fez.
Mais tarde, em seu quarto, lembra os livros que caíram da caixa. As Aventuras de Tom Sawyer, Hucklerberry Finn, Os Três Mosqueteiros, Moby Dick, Os Doze Trabalhos de Hércules, Meu Pé de Laranja Lima, As Mil e Uma Noites, Oliver Twist, O Menino do Dedo Verde, Os Capitães da Areia. Alguns ele já tinha lido, outros apenas desejando ler. Uma certeza vem à parte para se justificar e, também, para argumentar com o grupo.
- Quem tem estes livros joga no meu time!
Simples assim... Poesias e Alguns Poemas. Desde Poesias e Contos à uma História.
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domingo, 8 de maio de 2011
sábado, 30 de abril de 2011
Conto - Ana Guimaraes - As Gargulas - A Casa da vovó
A tempestade fustigava a janela, impiedosamente. Pamdora treme a cada trovão que irrompe no céu, sempre precedido por um clarão, que penetra pelas frestas das venezianas iluminando o pequeno quarto na casa da avó. Em sua casa, no tem medo de chuva forte, porque os pais dormem no quarto ao lado, ao alcance de sua voz. Mas, no sobrado antigo, a menina está no andar térreo, enquanto a avó dorme acima da escada.
Para piorar as coisas, a natureza chama e Pamdora precisa ir ao banheiro no fim do corredor, apesar de estar morrendo de medo. Retira os pés de dentro das cobertas, tateando atrás das pantufas em formato de coelho. Coloca por cima do pijama de pelúcia estampado um chambre amarelo combinando.
Os passos suaves fazem ranger a madeira das tábuas, o cheiro de alfazema é quebrado pelo ozônio dos relâmpagos. Lá fora, a calha despeja água como uma cachoeira, só piorando a necessidade da menina. Ainda assim, ela caminha devagar, assustada com o ruído dos próprios passos.
Sai da sala em frente ao quarto e entra no corredor, acende a luz, pois a luminosidade do quarto não chega até ali. Quando alcança a metade do caminho, um raio por um trovão apaga todas as luzes da rua. Agora no escuro, a menina pensa, basta seguir em frente, com as pantufas arrastando no chão.
Chega até a porta entreaberta e entra no banheiro, quase tropeça do chão, mais alcança o vaso. Mais aliviada, hesita entre ficar onde está, esperando a volta da luz, ou ir para o quarto. As pálpebras começam a pesar, o frio e a umidade alcançam os ossos, se convence de que precisa voltar para a cama. A água gelada queima a pele, mas o sabonete da vovó é familiar, pensa a menina, lavando as mãos.
Novamente arrastando as pantufas, dá alguns passos, enquanto os braços buscam a porta. No corredor escuro, Pamdora desliza as mãos nas paredes, o coração disparado. Quando um relâmpago despeja uma réstia de luz na sala em frente, um vulto surge, somente por uma fração de segundo e a escuridão a envolve novamente. Grita. mas seus pés parecem fincados no chão. Sente alguém segurar seu braço, falando palavras incompreensíveis. O pânico toma conta de seu corpo e ela cai, desacordada. Quando abre os olhos, percebe que está na cama quentinha, e o resto bondoso da avó está ao seu lado, uma lanterna sobre a mesa de cabeceira faz desenhos na parede.
- Tinha alguém lá embaixo, eu vi.
- Não precisa ficar assustada, era apenas o espelho inquietando o fundo do corredor.
Para piorar as coisas, a natureza chama e Pamdora precisa ir ao banheiro no fim do corredor, apesar de estar morrendo de medo. Retira os pés de dentro das cobertas, tateando atrás das pantufas em formato de coelho. Coloca por cima do pijama de pelúcia estampado um chambre amarelo combinando.
Os passos suaves fazem ranger a madeira das tábuas, o cheiro de alfazema é quebrado pelo ozônio dos relâmpagos. Lá fora, a calha despeja água como uma cachoeira, só piorando a necessidade da menina. Ainda assim, ela caminha devagar, assustada com o ruído dos próprios passos.
Sai da sala em frente ao quarto e entra no corredor, acende a luz, pois a luminosidade do quarto não chega até ali. Quando alcança a metade do caminho, um raio por um trovão apaga todas as luzes da rua. Agora no escuro, a menina pensa, basta seguir em frente, com as pantufas arrastando no chão.
Chega até a porta entreaberta e entra no banheiro, quase tropeça do chão, mais alcança o vaso. Mais aliviada, hesita entre ficar onde está, esperando a volta da luz, ou ir para o quarto. As pálpebras começam a pesar, o frio e a umidade alcançam os ossos, se convence de que precisa voltar para a cama. A água gelada queima a pele, mas o sabonete da vovó é familiar, pensa a menina, lavando as mãos.
Novamente arrastando as pantufas, dá alguns passos, enquanto os braços buscam a porta. No corredor escuro, Pamdora desliza as mãos nas paredes, o coração disparado. Quando um relâmpago despeja uma réstia de luz na sala em frente, um vulto surge, somente por uma fração de segundo e a escuridão a envolve novamente. Grita. mas seus pés parecem fincados no chão. Sente alguém segurar seu braço, falando palavras incompreensíveis. O pânico toma conta de seu corpo e ela cai, desacordada. Quando abre os olhos, percebe que está na cama quentinha, e o resto bondoso da avó está ao seu lado, uma lanterna sobre a mesa de cabeceira faz desenhos na parede.
- Tinha alguém lá embaixo, eu vi.
- Não precisa ficar assustada, era apenas o espelho inquietando o fundo do corredor.
sábado, 23 de abril de 2011
Conto - Ana Guimaraens - A Carta
Com ar de tédio, o Guri vai até a caixa de correspondência, na frente de sua casa. É uma bela manhã de primavera, com pássaros cantando em quase todas as árvores da rua. Pega o jornal, ali depositado para que o cachorro não estraçalhe, algumas contas, um folheto de propaganda e, para sua surpresa, uma carta endereçada a ele.
Muito curioso, resolve abrir ali mesmo, mas, quando verifica que não há remetente, algo acontece. Sente as mãos se crisparem, a cabeça tontear. De lugar do passado uma lembrança dolorida brota, de forma devastadora, transportando-o no tempo.
Novamente é um menino que, sem idade suficiente para ir à escola, perambula pela casa em volta da mãe. Entra saltitante na cozinha para pedir biscoito e vê a mãe sentada com uma carta em seu colo e o envelope caído no chão. Ela está diferente, com nariz vermelho e o rosto transtornado.
- Ta chorando, mamãe? O que houve?
- Não sei, não tem remetente - responde ela, sem entender a pergunta, enxugando os olhos com a ponta do avental.
Mais tarde, o jantar é silencioso, bem diferente das conversas e risadas que normalmente animam o ambiente. A canja de galinha fumega, sob o ar pesado da sala. A mãe não fala e as tentativas do pai em estabelecer algum diálogo caem no vazio. O Guri brinca com a comida, distraído.
À noite, a mãe o coloca para dormir sem lhe contar histórias. E ele fica quieto no escuro, esperando a ouvir uma gritaria. O pai fala baixo, mas a mãe está alterada, falando rápido, num tom tão agudo, que é impossível entender as suas palavras. O Guri sente um medo enorme, coloca o travesseiro sobre a cabeça, desejando estar bem longe dali.
Já tinha ouvido discussões entre seus pais, mais aquilo é muito pior do que tudo que tenha visto antes. O pavor transforma-se em lágrimas, o menino adormece, num sono agitado repleto de pesadelos. Sonha que os pais tinham morrido ou que foram embora, que ele estava sozinho no mundo.
Na manha seguinte, tudo volta ao normal. Por muitos anos, o Guri pensou tratar-se de fantasia. Até aquele dia, em frente à caixa de correspondência.
Como se estivesse em transe, o menino coloca os papéis de lado, rasga a carta em pedacinhos e volta rápido para dentro de casa, sem olhar para trás.
Do outro lado da, rua, através da vidraça, uma menina pálida, de tranças negras e olhos castanhos amendoados, observa sua cartinha ser destruída.
Muito curioso, resolve abrir ali mesmo, mas, quando verifica que não há remetente, algo acontece. Sente as mãos se crisparem, a cabeça tontear. De lugar do passado uma lembrança dolorida brota, de forma devastadora, transportando-o no tempo.
Novamente é um menino que, sem idade suficiente para ir à escola, perambula pela casa em volta da mãe. Entra saltitante na cozinha para pedir biscoito e vê a mãe sentada com uma carta em seu colo e o envelope caído no chão. Ela está diferente, com nariz vermelho e o rosto transtornado.
- Ta chorando, mamãe? O que houve?
- Não sei, não tem remetente - responde ela, sem entender a pergunta, enxugando os olhos com a ponta do avental.
Mais tarde, o jantar é silencioso, bem diferente das conversas e risadas que normalmente animam o ambiente. A canja de galinha fumega, sob o ar pesado da sala. A mãe não fala e as tentativas do pai em estabelecer algum diálogo caem no vazio. O Guri brinca com a comida, distraído.
À noite, a mãe o coloca para dormir sem lhe contar histórias. E ele fica quieto no escuro, esperando a ouvir uma gritaria. O pai fala baixo, mas a mãe está alterada, falando rápido, num tom tão agudo, que é impossível entender as suas palavras. O Guri sente um medo enorme, coloca o travesseiro sobre a cabeça, desejando estar bem longe dali.
Já tinha ouvido discussões entre seus pais, mais aquilo é muito pior do que tudo que tenha visto antes. O pavor transforma-se em lágrimas, o menino adormece, num sono agitado repleto de pesadelos. Sonha que os pais tinham morrido ou que foram embora, que ele estava sozinho no mundo.
Na manha seguinte, tudo volta ao normal. Por muitos anos, o Guri pensou tratar-se de fantasia. Até aquele dia, em frente à caixa de correspondência.
Como se estivesse em transe, o menino coloca os papéis de lado, rasga a carta em pedacinhos e volta rápido para dentro de casa, sem olhar para trás.
Do outro lado da, rua, através da vidraça, uma menina pálida, de tranças negras e olhos castanhos amendoados, observa sua cartinha ser destruída.
sexta-feira, 22 de abril de 2011
Conto - Ana Guimaraens - A bossa do vovô
Semana passada, morreu o avô do Caco. Apesar do Guri não conhecê-lo, este fato o fez pensar na sua própria família. Ele é um menino arteiro como todos da sua idade, gosta de jogar bola, brincar, ler e fazer travessuras.
O seu pai é muito correto e trabalhador, não costuma dizer bobagens e, em casa, somente a sua mulher é capaz de fazê-lo rir. Às vezes, joga bola com os amigos e chega alegre, depois de uma boa quantidade de cervejas, mais vai direto para a cama e no outro dia não fala nada a respeito.
Seu avô é faceiro, bem-humorado e brincalhão. Adora contar histórias engraçadas. Enviuvou há mais de dez anos, mais nem por isto deixa de frequentar os bailes da terceira idade, onde sempre arruma alguma namorada. nada sério, pois ele diz que o negócio dele é só ficar. Na rua, não se intimida em olhar as pernas e bunda das mulheres, claro que não comenta nada, pois é um cavalheiro. Apenas envergonha um pouco o neto e o filho, às vezes os dois juntos, pois sutileza não é a sua especialidade.
A grande questão do Guri é saber que, se um é pai do outro, provavelmente cada um está numa etapa diferente da vida. Desta maneira, primeiro tem a fase de meninos arteiros, depois de homens sérios e, finalmente de velhos safados. Mas, apesar de ter alguma preocupação quanto a tornar-se um homem, uma coisa lhe serve de consolo - seguramente, o avô é o mais feliz de todos.
O seu pai é muito correto e trabalhador, não costuma dizer bobagens e, em casa, somente a sua mulher é capaz de fazê-lo rir. Às vezes, joga bola com os amigos e chega alegre, depois de uma boa quantidade de cervejas, mais vai direto para a cama e no outro dia não fala nada a respeito.
Seu avô é faceiro, bem-humorado e brincalhão. Adora contar histórias engraçadas. Enviuvou há mais de dez anos, mais nem por isto deixa de frequentar os bailes da terceira idade, onde sempre arruma alguma namorada. nada sério, pois ele diz que o negócio dele é só ficar. Na rua, não se intimida em olhar as pernas e bunda das mulheres, claro que não comenta nada, pois é um cavalheiro. Apenas envergonha um pouco o neto e o filho, às vezes os dois juntos, pois sutileza não é a sua especialidade.
A grande questão do Guri é saber que, se um é pai do outro, provavelmente cada um está numa etapa diferente da vida. Desta maneira, primeiro tem a fase de meninos arteiros, depois de homens sérios e, finalmente de velhos safados. Mas, apesar de ter alguma preocupação quanto a tornar-se um homem, uma coisa lhe serve de consolo - seguramente, o avô é o mais feliz de todos.
sábado, 12 de março de 2011
Conto de Ana Guimaraens - A Ponte
Henrique precisou afastar-se do grupo que fazia o passeio pelo parque. A natureza chamou-o com extrema urgência e, se ele não chegasse a tempo a um local adequado, arriscava molhar as calças. Olhou a sua volta e nem sinal de uma estrutura que parecesse sanitário. Partiu então para a solução natural, buscar um canto mais remoto para regar as plantas com privacidade. Mas cada vez que pensava encontrar o ambiente ideal, os sons de vozes faziam-no desistir e retomar a procura.
Quando chegou próximo a uma pequena ponte de pedra, já estava em situação caótica, corroborada pelo som do pequeno riacho borbulhando sobre as pedras do riacho. Atravessou a ponte e deu de cara com uma imensa entrada de que parecia ser um castelo medieval, feito de grandes pedras azul-acinzentadas.
Estava decidido a prestigiar o muro, quando ouviu vozes aproximando-se. Um homem velho com uma túnica marrom, cercado por um grupo de jovens com túnicas beges. Sem pensar em coisa melhor a fazer o Henrique gritou:
-- Banheiro!
O fez um sinal, indicando a direção a tomar. Henrique saiu correndo em direção a uma porta de madeira rústica, no prédio da mesma pedra que os muros externos, e finalmente conseguiu aliviar-se. O local tinha um suave aroma de pinho, não desses industrializados, mas algo tão sutil que parecia ter um pinheiro ali dentro. Notou também que tudo estava extremamente limpo e, ao lavar as mãos, verificou que o sabonete era artesanal, branco com flocos de aveia aparentes e cheiro de coco.
Voltando ao pátio interno, um grupo o cumprimentou com alegria, como se o aguardasse.
-- Seja bem-vindo, meu filho. Como te chamas?
-- Henrique. Desculpe o mau jeito na chegada, estava muito apertado.
-- Compreendo, muitos chegam aqui assim.
Sem entender o do que o velho falava, começou a dar uma boa olhada a sua volta. O prédio era enorme, com inúmeras portas e escadas, todas comunicando com o pátio principal, onde estavam. Julgou a princípio tratar-se de um mosteiro, mas observou que alguns dos jovens de túnica bege na verdade eram moças.
Um sino começou a tocas do alto de uma torre do prédio. Inúmeras pessoas vindas de todas as portas e escadas começaram a saudá-lo, entusiasmadas, usando túnicas de todas as cores. Lentamente, o grupo de jovens que se formou a sua volta foi indo em direção a uma porta dupla. Lá dentro, uma grande mesa rústica, com uma toalha artesanal, estava coberta de iguarias coloniais. Diversos tipos de pães, fiambres, queijo, geleias de frutas e mel.
De cada lado da mesa, longos bancos de madeira, onde os jovens se acotovelavam.
Henrique comeu com vontade, pois tudo tava delicioso. Serviam-lhe vinho tirado de garrafões revestidos de vime, com um sabor adocicado de uvas brancas. Por conta de sentir alcoolizado, não rejeitou o alojamento que lhe ofereceram para passar a noite.
Entrou no pequeno quarto, com uma porta e uma única janela, da qual dava para ver apenas árvores altas e as estrelas na noite sem lua. Um catre, uma cadeira e uma cômoda, onde uma túnica igual à dos demais o aguardava. Tirou toda a roupa, enfiou a túnica pela cabeça e deitou-se, ainda incerto se era sonho ou realidade.
No meio da noite, acordou com uma boa parte do álcool já evaporada. Sentada na cadeira, uma jovem o observava. Quando percebeu que ele estava acordado, retirou a sua túnica e, completamente nua deitou-se ao seu lado.. Henrique ficou lívido, ela passou a acariciá-lo. Ela tinha cheiro de grama fresca cortada. Amaram-se sem ter trocado uma única palavra, pois ela foi embora logo que terminaram. Ele teve certeza de que era sonho e voltou a dormir.
Na manha seguinte, para sua surpresa ainda estava no mosteiro. Um rapaz sorridente o aguardava no pátio à frente de sua porta.
-- Está com fome?
-- Sim.
-- A primeira refeição está servida, vamos.
Novamente a mesa do salão estava repleta, porém, em vez de vinho, foram servidos leite e sucos de frutas. Henrique sentou-se e, com apetite, começou a devorar tudo. Do outro lado da mesa, uma jovem de longos cabelos ruivos, com o rosto sardento, os olhos claros e a boca de pitanga madura, sorria para ele. Entendeu tratar-se da moça que o visitou na noite anterior, e baixou a cabeça um pouco constrangido. Ela roçou a sua mão na dele, ao pegar um pedaço de bolo. Ele sentiu arrepiar até o último fio de cabelo, ao reconhecer sua pele.
-- Está tudo do seu agrado? -- Perguntou o velho, sentado-se ao seu lado.
-- Tudo delicioso - respondeu ele, evitando olhar na direção da ruiva. Não queria ser mal interpretado.
-- Ficamos felizes. Faz tempo que não temos visitantes.
-- Estás brincando -- retrucou Henrique. -- Estamos no meio de um parque, da capital do estado, e ninguém aparece aqui?
-- Meu filho, nós precisamos conversar -- disse, e levantando-se.
Henrique levantou-se também, e seguiu o velho até o patio, saindo pelo portão da frente.
--Vês? --disse o velho. -- Não estamos num parque, e sim nas nuvens.
Realmente,à volta dos muros uma densa neblina substituía o entorno. O parque, a cidade, tudo tinha desaparecido, sem deixar rastros.
--Mas tinha uma ponte aqui.
--Eu sei. mas esqueça o passado, não podes mais voltar, tu fostes escolhido para estar conosco. Agora o teu lugar é aqui, no céu.
-- Será que eu morri e não percebi? Como isto é possível. Deve ser algum truque.
Tomando coragem, foi caminhando em linha retal, até chegar ao limite da neblina, e não ter chão para pisar. Desequilibrou-se e, se não foce o braço do velho a segurá-lo, teria despencado.
-- Não se desespere meu filho. Encare com coragem a sua nova vida.
Os dias foram se passando, sem que ele desistisse. Não que a vida no céu fosse ruim, mas ele tinha certeza de que precisava voltar. Todo final de tarde, ele ia até o portão principal, na esperança de que as nuvens tivessem desaparecido e ele, finalmente, pudesse voltar para casa.
Numa destas ocasiões, ouviu a voz da moça ruiva falar com ele.
-- Tu não estás feliz aqui? Falta-te alguma coisa?
Ele não soube responder. Neste momento, percebeu que as únicas coisas de que se lembrava de sua vida anterior era estar passeando no parque e ter atravessado uma ponte. Sua família, seus amigos e seu passado tinha se apagado da memória. Não sabia mais quem era nem de onde vinha, lembrava apenas de seu nome, Henrique. O último homem que veio do exterior, pois ninguém mais apareceu.
Os anos se passaram, e ele, aos poucos, foi se adaptando à nova vida, simples e fragal. Aprendeu o ofício de cinzelador, tornando-se útil à comunidade. Construiu uma casa para si com as próprias mãos. A jovem ruiva casou-se com ele e deu-lhe três crianças adoráveis. A barba cresceu e tornou-se grisalha, mas ele nunca esqueceu daquela ponte, até colocou um banco de pedra ao lado da estrada principal, onde às vezes se punha a divagar, tentando entender o que tinha acontecido à sua vida. No mesmo lugar onde antes tentava voltar para casa.
Um dia, já bem velho e com a visão um pouco turva, estava ele sentado em seu bando, quando, repentinamente, a neblina dissipou-se um pouco e o ruído de um riacho borbulhante chegou aos seus ouvidos. Levantou-se com alguma dificuldade, apoiando-se na bengala de pau de goiabeira. Lentamente foi caminhando, guiando-se pelo som.
Mal pode conter a alegria quando viu que novamente a ponte estava lá,exatamente como há cinquenta anos. Tentou apressar o passo, mais as pernas não ajudavam. Quando chegou ao meio do caminho, precisou-se apoiar-se, com os dois braços, na mureta do lado esquerdo. Olhou para baixo, o riacho parou parou por alguns minutos, e ele pôde ver seu rosto velho e cansado no espelho d'água que se formou.
As lágrimas vieram ao seu rosto, abaixou-se para pegar a bengala que deixara cair, ao apoiar-se. Virou-se e começou a caminhar o mais rápido que podia, usando todas as suas forças, de volta ao Céu, às coisas que realmente importavam para ele. Percebera que só tinha um lugar no mundo para viver, e não queria correr o risco de perdê-lo.
Quando chegou próximo a uma pequena ponte de pedra, já estava em situação caótica, corroborada pelo som do pequeno riacho borbulhando sobre as pedras do riacho. Atravessou a ponte e deu de cara com uma imensa entrada de que parecia ser um castelo medieval, feito de grandes pedras azul-acinzentadas.
Estava decidido a prestigiar o muro, quando ouviu vozes aproximando-se. Um homem velho com uma túnica marrom, cercado por um grupo de jovens com túnicas beges. Sem pensar em coisa melhor a fazer o Henrique gritou:
-- Banheiro!
O fez um sinal, indicando a direção a tomar. Henrique saiu correndo em direção a uma porta de madeira rústica, no prédio da mesma pedra que os muros externos, e finalmente conseguiu aliviar-se. O local tinha um suave aroma de pinho, não desses industrializados, mas algo tão sutil que parecia ter um pinheiro ali dentro. Notou também que tudo estava extremamente limpo e, ao lavar as mãos, verificou que o sabonete era artesanal, branco com flocos de aveia aparentes e cheiro de coco.
Voltando ao pátio interno, um grupo o cumprimentou com alegria, como se o aguardasse.
-- Seja bem-vindo, meu filho. Como te chamas?
-- Henrique. Desculpe o mau jeito na chegada, estava muito apertado.
-- Compreendo, muitos chegam aqui assim.
Sem entender o do que o velho falava, começou a dar uma boa olhada a sua volta. O prédio era enorme, com inúmeras portas e escadas, todas comunicando com o pátio principal, onde estavam. Julgou a princípio tratar-se de um mosteiro, mas observou que alguns dos jovens de túnica bege na verdade eram moças.
Um sino começou a tocas do alto de uma torre do prédio. Inúmeras pessoas vindas de todas as portas e escadas começaram a saudá-lo, entusiasmadas, usando túnicas de todas as cores. Lentamente, o grupo de jovens que se formou a sua volta foi indo em direção a uma porta dupla. Lá dentro, uma grande mesa rústica, com uma toalha artesanal, estava coberta de iguarias coloniais. Diversos tipos de pães, fiambres, queijo, geleias de frutas e mel.
De cada lado da mesa, longos bancos de madeira, onde os jovens se acotovelavam.
Henrique comeu com vontade, pois tudo tava delicioso. Serviam-lhe vinho tirado de garrafões revestidos de vime, com um sabor adocicado de uvas brancas. Por conta de sentir alcoolizado, não rejeitou o alojamento que lhe ofereceram para passar a noite.
Entrou no pequeno quarto, com uma porta e uma única janela, da qual dava para ver apenas árvores altas e as estrelas na noite sem lua. Um catre, uma cadeira e uma cômoda, onde uma túnica igual à dos demais o aguardava. Tirou toda a roupa, enfiou a túnica pela cabeça e deitou-se, ainda incerto se era sonho ou realidade.
No meio da noite, acordou com uma boa parte do álcool já evaporada. Sentada na cadeira, uma jovem o observava. Quando percebeu que ele estava acordado, retirou a sua túnica e, completamente nua deitou-se ao seu lado.. Henrique ficou lívido, ela passou a acariciá-lo. Ela tinha cheiro de grama fresca cortada. Amaram-se sem ter trocado uma única palavra, pois ela foi embora logo que terminaram. Ele teve certeza de que era sonho e voltou a dormir.
Na manha seguinte, para sua surpresa ainda estava no mosteiro. Um rapaz sorridente o aguardava no pátio à frente de sua porta.
-- Está com fome?
-- Sim.
-- A primeira refeição está servida, vamos.
Novamente a mesa do salão estava repleta, porém, em vez de vinho, foram servidos leite e sucos de frutas. Henrique sentou-se e, com apetite, começou a devorar tudo. Do outro lado da mesa, uma jovem de longos cabelos ruivos, com o rosto sardento, os olhos claros e a boca de pitanga madura, sorria para ele. Entendeu tratar-se da moça que o visitou na noite anterior, e baixou a cabeça um pouco constrangido. Ela roçou a sua mão na dele, ao pegar um pedaço de bolo. Ele sentiu arrepiar até o último fio de cabelo, ao reconhecer sua pele.
-- Está tudo do seu agrado? -- Perguntou o velho, sentado-se ao seu lado.
-- Tudo delicioso - respondeu ele, evitando olhar na direção da ruiva. Não queria ser mal interpretado.
-- Ficamos felizes. Faz tempo que não temos visitantes.
-- Estás brincando -- retrucou Henrique. -- Estamos no meio de um parque, da capital do estado, e ninguém aparece aqui?
-- Meu filho, nós precisamos conversar -- disse, e levantando-se.
Henrique levantou-se também, e seguiu o velho até o patio, saindo pelo portão da frente.
--Vês? --disse o velho. -- Não estamos num parque, e sim nas nuvens.
Realmente,à volta dos muros uma densa neblina substituía o entorno. O parque, a cidade, tudo tinha desaparecido, sem deixar rastros.
--Mas tinha uma ponte aqui.
--Eu sei. mas esqueça o passado, não podes mais voltar, tu fostes escolhido para estar conosco. Agora o teu lugar é aqui, no céu.
-- Será que eu morri e não percebi? Como isto é possível. Deve ser algum truque.
Tomando coragem, foi caminhando em linha retal, até chegar ao limite da neblina, e não ter chão para pisar. Desequilibrou-se e, se não foce o braço do velho a segurá-lo, teria despencado.
-- Não se desespere meu filho. Encare com coragem a sua nova vida.
Os dias foram se passando, sem que ele desistisse. Não que a vida no céu fosse ruim, mas ele tinha certeza de que precisava voltar. Todo final de tarde, ele ia até o portão principal, na esperança de que as nuvens tivessem desaparecido e ele, finalmente, pudesse voltar para casa.
Numa destas ocasiões, ouviu a voz da moça ruiva falar com ele.
-- Tu não estás feliz aqui? Falta-te alguma coisa?
Ele não soube responder. Neste momento, percebeu que as únicas coisas de que se lembrava de sua vida anterior era estar passeando no parque e ter atravessado uma ponte. Sua família, seus amigos e seu passado tinha se apagado da memória. Não sabia mais quem era nem de onde vinha, lembrava apenas de seu nome, Henrique. O último homem que veio do exterior, pois ninguém mais apareceu.
Os anos se passaram, e ele, aos poucos, foi se adaptando à nova vida, simples e fragal. Aprendeu o ofício de cinzelador, tornando-se útil à comunidade. Construiu uma casa para si com as próprias mãos. A jovem ruiva casou-se com ele e deu-lhe três crianças adoráveis. A barba cresceu e tornou-se grisalha, mas ele nunca esqueceu daquela ponte, até colocou um banco de pedra ao lado da estrada principal, onde às vezes se punha a divagar, tentando entender o que tinha acontecido à sua vida. No mesmo lugar onde antes tentava voltar para casa.
Um dia, já bem velho e com a visão um pouco turva, estava ele sentado em seu bando, quando, repentinamente, a neblina dissipou-se um pouco e o ruído de um riacho borbulhante chegou aos seus ouvidos. Levantou-se com alguma dificuldade, apoiando-se na bengala de pau de goiabeira. Lentamente foi caminhando, guiando-se pelo som.
Mal pode conter a alegria quando viu que novamente a ponte estava lá,exatamente como há cinquenta anos. Tentou apressar o passo, mais as pernas não ajudavam. Quando chegou ao meio do caminho, precisou-se apoiar-se, com os dois braços, na mureta do lado esquerdo. Olhou para baixo, o riacho parou parou por alguns minutos, e ele pôde ver seu rosto velho e cansado no espelho d'água que se formou.
As lágrimas vieram ao seu rosto, abaixou-se para pegar a bengala que deixara cair, ao apoiar-se. Virou-se e começou a caminhar o mais rápido que podia, usando todas as suas forças, de volta ao Céu, às coisas que realmente importavam para ele. Percebera que só tinha um lugar no mundo para viver, e não queria correr o risco de perdê-lo.
sexta-feira, 11 de março de 2011
Conto de Ana Guimaraens - Viagens
Ela estava feliz. Logo que recebeu o convite, comprou a passagem, arrumou a mala, vestiu-se com esmero e foi viajar. seu namorado estava em outra cidade para receber um prêmio e convidou-a para acompanhá-lo.
Alguns meses atrás, ele tinha terminado o relacionamento. A partir daí, a vida dela ficou suspensa, como uma gota que se solta da torneira e não cai na pia. Ou um pescador que perdeu o leme em alto-mar, intercalando momentos de serenidade, esperando o socorro sentado, e desespero, percorrendo o barco de proa a popa.
Teve o dia dos namorados, em que ela escreveu um poema de reconciliação. Telefonou e ele respondeu que não podia falar pois estava num jantar, mas ligaria mais tarde. Ela esperou até de madrugada, em frente à TV, com um tricô nas mãos, pantufas nos pés e o gato no colo. Passaram-se um dia, uma semana e nada. O poema ficou perdido, extraviado em alguma gaveta, junto com sua autoestima.
Mas agora ele a tinha chamado, e tudo seria diferente. Chegou ao hotel, horas antes de amanhecer.
Não quis incomodá-lo. Apenas mandou uma mensagem, avisando de sua chegada. Entrou no quarto e tirou a roupa suada. Errou na temperatura, estava quente. O blusão vermelho de gola alta, com a camiseta segunda pele e a calça de lã, não combinava com os quase trinta graus Celsius
Entrou num banho fresco e perfumado. Lavou os cabelos com cuidado, imaginando que a água espumada lavava também a angústia dos últimos tempos. Enrolou-se na toalha branca e macia. Pegou o necessaire. Desodorante, pasta e escova de dentes, perfume. Sorria, escrevendo bobagens no espelho embaçado.
Voltou ao quarto e abriu a mala, para escolher o que iria usar. Tirou um pijama de zebra. Um outro cor-de-rosa. O de algodão, floreado. A camisola preta de cetim e rendas. Outra azul lisa, quase na altura do joelho. A amarela, de tecido apeluciado. O pavor tomou conta dela, não havia mais nenhuma roupa.Trouxe todos os pijamas e camisolas. Apenas isso, nada que pudesse vestir para sair à rua.
O telefone tocou, e ela atendeu como se estive-se em transe.
Oi, querida! Como foste de viagem? Silêncio prolongado. Alô, alô! Está tudo bem? Um fio de voz prolongado. sim Tu vens ou queres que eu te busque? Vai começar à nove... Ela interrompe com um grito. Não posso. O quê? E uma comporta se rompe e todas as lágrimas contidas explodem num pranto desesperado. Eu não posso, não posso.
A gota cai na pia e o pescador finalmente se atira no mar.
Alguns meses atrás, ele tinha terminado o relacionamento. A partir daí, a vida dela ficou suspensa, como uma gota que se solta da torneira e não cai na pia. Ou um pescador que perdeu o leme em alto-mar, intercalando momentos de serenidade, esperando o socorro sentado, e desespero, percorrendo o barco de proa a popa.
Teve o dia dos namorados, em que ela escreveu um poema de reconciliação. Telefonou e ele respondeu que não podia falar pois estava num jantar, mas ligaria mais tarde. Ela esperou até de madrugada, em frente à TV, com um tricô nas mãos, pantufas nos pés e o gato no colo. Passaram-se um dia, uma semana e nada. O poema ficou perdido, extraviado em alguma gaveta, junto com sua autoestima.
Mas agora ele a tinha chamado, e tudo seria diferente. Chegou ao hotel, horas antes de amanhecer.
Não quis incomodá-lo. Apenas mandou uma mensagem, avisando de sua chegada. Entrou no quarto e tirou a roupa suada. Errou na temperatura, estava quente. O blusão vermelho de gola alta, com a camiseta segunda pele e a calça de lã, não combinava com os quase trinta graus Celsius
Entrou num banho fresco e perfumado. Lavou os cabelos com cuidado, imaginando que a água espumada lavava também a angústia dos últimos tempos. Enrolou-se na toalha branca e macia. Pegou o necessaire. Desodorante, pasta e escova de dentes, perfume. Sorria, escrevendo bobagens no espelho embaçado.
Voltou ao quarto e abriu a mala, para escolher o que iria usar. Tirou um pijama de zebra. Um outro cor-de-rosa. O de algodão, floreado. A camisola preta de cetim e rendas. Outra azul lisa, quase na altura do joelho. A amarela, de tecido apeluciado. O pavor tomou conta dela, não havia mais nenhuma roupa.Trouxe todos os pijamas e camisolas. Apenas isso, nada que pudesse vestir para sair à rua.
O telefone tocou, e ela atendeu como se estive-se em transe.
Oi, querida! Como foste de viagem? Silêncio prolongado. Alô, alô! Está tudo bem? Um fio de voz prolongado. sim Tu vens ou queres que eu te busque? Vai começar à nove... Ela interrompe com um grito. Não posso. O quê? E uma comporta se rompe e todas as lágrimas contidas explodem num pranto desesperado. Eu não posso, não posso.
A gota cai na pia e o pescador finalmente se atira no mar.
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