Você só tem um coração; não o entregue a quem não saberá carregá-lo
com ternura. Não o entregue aos leões, para que o dilacerem a
dentadas selvagens que ficam marcadas por muito tempo. Às vezes para
sempre. Não se entregue a quem não te devolve. Não se negue... Você
só tem um coração, e ele está só dentro de você; não o perca de
vista... É necessário alcançá-lo entre o êxtase e a razão, em pontos
de equilíbrio raros e fundos. Mas coração é pena, um ventinho de
amor o leva às estrelas... Você só tem um coração, segure-o firme na
sua mão. Diga-lhe que é seu – embora ele não vá escutar. Mime-o,
converse com ele sobre os novos verões que poderão mudar tudo.
Ensine a ele poesia, quem sabe Vinícius de Moraes e um pouco de
Clarice Lispector. E também a música, já que ela tem a capacidade
inacreditável de compreender o invisível. Você só tem um coração,
não o esqueça por nada neste mundo. Não o venda, não o hipoteque,
não o empreste e muito menos o dê – a não ser que receba outro
coração em troca, um que você queira. Não o dê assim para qualquer
um, um embrulho estranho sem destino certo. E o mais importante: dê!
Um dia... Preserve-se. Não demais, não de menos. Você só tem um
coração e nele cabe o amor. Ainda que transborde. Ainda que amoleça,
endureça e depois transforme. Amor é matéria de mistério, coração é
matéria de infinito. Sem mais explicações! Mas sabemos que todos
estes milhares de fórmulas sobre o coração já se provaram falhos...
Apenas então tente salvá-lo. Descubra sua própria salvação, guarde-a
com sua chave e com seu nome ainda que esse nome não seja “amor”.
Embora vá provavelmente ser, sem talvez você saber.
Simples assim... Poesias e Alguns Poemas. Desde Poesias e Contos à uma História.
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terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
Poeta: Leila Krüger - Flor de Fim
Como
saber?
Se a tristeza é breve
se a alegria é forte
se a paz é leve.
Se a fé rebrota
no inverno gris.
Se teus dedos
na madrugada
fazem meu fim.
Como saber?
Entender tua cor.
Como saber?
Se já não sou.
Como não ser?
Se nós somos flor...
Poeta: Leila Krüger - Quase Verão
Há uma chuva negra e macia na vidraça.
Quase cinza,
um tanto fraca... me acaricia.
Pingos me olham – esperando o chão cegar.
Pingos me olham – esperando o chão cegar.
Chegar!
E o desespero do que chove no mesmo lugar. E a nuvem que
se move...
sobre as palavras... que eu não te dei. Negra na janela,
esperando o chão.Sou eu quem chove – antes do verão...
Sou eu quem grita! – Ao perder teu rosto de areia, entre minhas mãos...
Poeta: Leila Krüger - Longe
Mas se eu tiver que ser
sozinha, serei inteira
serei plácida, como o lago
que espera a chuva
como a chuva que busca a
manhã.
E se eu tiver que ser
escura, serei grandiloquente
se tácita, valente
se árida, compreensiva, ao
menos
se ainda assim severa...
então liberta.
E se me perder de tudo, e
até do fim...
possivelmente eu serei nova
como o verão, no céu de
janeiro
como janeiro, no céu de
Paris!
Seja lá onde for
Paris...
Hoje, em qualquer lugar,
longe daqui. Longe, longe...
Poeta: Leila Krüger - A queda da Bastilha
Enfim
perdi a batalha surda contra a própria mudez.
Enfim a inoperância de meus
punhos
para esmurrar estes
labirintos de ferro,
para desnudar o universo.
Enfim, voltei... enfim não
sei mais!
Enfim me recolho com meus
únicos próprios braços,
esperando, no entanto, que
haja ainda alguma bondade
nestes pequenos fardos.
Enfim
acato a tristeza como uma rosa frágil que é minha...
Enfim não espero nada,
mas acredito em tudo aquilo
que não é passível de ser verdade.
Como sei agora,
posso embalar a verdade em
meu colo
até que ela acorde, e me
olhe.
Caso ela não fuja eu um dia
a verei crescer...
Como os carvalhos antigos
que arrebentavam o céu,
assim cresce a verdade em
meu pequeno bosque.
Copas silenciosas, em nuvens
vagarosas, em tardes apenas grenás.
Enfim,
perdi...
mas
chorei como quem vence. Então venci!
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