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quinta-feira, 19 de junho de 2014

Poema de Thiago de Mello - Os Estatutos do Homem


Artigo I 

Fica decretado que agora vale a verdade.
Agora vale a vida, e de mãos dadas,
Marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II 

Fica decretado que todos os dias da semana,
Inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
Têm direito a converter-se em manhãs de domingo. 

Artigo III

Fica decretado que,
A partir deste instante,
Haverá girassóis em todas as janelas, 
Que os girassóis terão direito
A abrir-se dentro da sombra;
E que as janelas devem permanecer, 
O dia inteiro, 
Abertas para o verde onde cresce a esperança. 

Artigo IV 

Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento,
Como o vento confia no ar,
Como o ar confia no campo azul do céu.

sábado, 16 de junho de 2012

Poema: Por Gabriel Queiroz - Segredo



É, parece não ter jeito
O que eu sinto por você não sai do meu peito
E por mais que eu queira disfarçar
Acabo me entregando pelo meu olhar.

Quem sabe é coisa do destino
Pois quanto mais eu tento me afastar de você mais me aproximo
E me seguro pra não te beijar
Por ter receio de me machucar.

O futuro pode até ser incerto
Mas sei que um dia vou te ter bem perto
Só que a dúvida me cala a voz
Mas espero que eu e você se transforme em nós.

Pode até não acreditar no que estou sentindo
Porém, te juro, não estou mentindo
Deus não te colocou no meu caminho por coincidência
Talvez tu sejas a minha verdadeira essência.

Um dia vou te revelar esse segredo
E acabar de vez com o meu medo
Mas enquanto isso não acontece
Olho pro céu e faço uma prece.

Nessa oração, peço que você tenha paciência com o tempo
Pois tudo tem o seu exato momento
E o nosso está próximo de virar verdade
Pra fazer o meu sonho finalmente se tornar realidade.

Gabriel Queiroz

terça-feira, 12 de junho de 2012

Poema: Amanda Luiza - Tempo



Mais um ano
E você não voltou

Um mês já se passou
Um vazio que não cessou

Uma semana
Sem seu cheiro

Todos os dias
Olho pra porta da nossa casa

Cada hora
Meus pensamentos estão em você

Conto os minutos
Pra estar em seus braços novamente

Espero os segundos
Pra colar minha boca na tua

Amanda Luiza

Poema: Amanda Luiza - Não sou nada mas com você sou tudo



Uma escritora sem imaginação
Uma pobre com um milhão
Mais inda sou uma garota sem coração

Não consigo criatividade pra amar
Nem uma dor pra chorar
Nem uma simples migalha para me apaixonar

Durmo cedo sem reclamar
Tenho sonhos que não vão se concretizar
Vivo sem ninguém para almejar

Nem uma simples folha pra criar
A razão da minha vida
Uma vida sem imaginação
Como uma folha velha
Que cai ao chão

Uma musica sem ritmo
Um som que não foi tocado
O beijo que não foi dado
Aquelas palavras que não foram ditas

Vivo sem esperança de encontrar
O meu caminho para realizar
Os meus sonhos pra concretizar

Vou encontrar alguém pra almejar
Alguém que me faça

Uma escritora com imaginação
Uma rica de emoção
E finalmente uma garota com coração

Vou finalmente virar

A musica com ritmo
O som tocado mais bonito
O beijo dado sem pensar
As palavras ditas pra amar

Vou ter um coração pra me apaixonar

Amanda Luiza

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Poema: Ana Helena Tavares - Um poeminha sem nome


Os carros passam
As nuvens com contornos mil
Os observam imóveis
Imponentes

A vida passa
Os seres com mente vil
A observam escorregadios
Impertinentes

Os seres passam
A vida a alguns sorriu
Não aos vazios
Mas aos diferentes.

Abril de 2010,
Ana Helena Tavares

domingo, 8 de janeiro de 2012

domingo, 18 de dezembro de 2011

Poeta: Pedro Stiehl - Rastilho

Desejo a loucura que desconheces
onde pousam tuas aves selvagens
depois de alcançarem voo da inocência.

Desejo o rastilho de teu riso
que incendeia o inferno quando de alegria
e pacifica o céu quando gozo.

Desejo o definitivo
como o homem primitivo
desejou as deusas
que nunca existiram

E eu faria existir.

Pedro Stiehl, O livro das Franquezas Humanas

Poeta: Pedro Stiehl - Incendiar

Toma este homem em tuas mãos.
Deita-o sobre teu ventre
altar e pira de sacrifícios
consagra seu coração e sua alma
com teu sorriso
santifica-o com teu suor
enobrece-o com teu prazer

E se ele não virar cinzas em teu regaço incendiado
Esqueça.

Pedro Stiehl, O livro das Franquezas Humanas.

Poeta: Pedro Stiehl - O Infinito No Teu Olho

O universo espelha
minha insignificância
singular partícula
a meditar sobre si mesma

No teu olho bonito
imagem tua me vem dar
o reflexo do infinito
que é me conquistar.

Pedro Stiehl, O livro das Franquezas Humanas.

Poeta: Pedro Stiehl - O Mesmo Nada

Deixem-me existir como quem cala qualquer clamor pela vida.
Quero ser mais forte que a memória dizer sim a tudo a que me nego e começar outro homem do nada a que me entrego.

Pedro Stiehl, O livro das Franquezas Humanas.

Poeta: Galdino Barreto - Gurizinho


O amor é feio
Eu tenho medo dele
Ele mexe com a gente
Eu vou falar para mãe:
Manhê! Olha o amor esse bobo...

Galdino Barreto - Breu, O lado escuro de um poema.

Poera: Galdino Barreto - Calçada

O cão sarnento dorme...
Que sejas poeta no sul
Eu nem sinto a dor dos meus irmãos
Ouço apenas o clarão do cantar dos teus olhos
Ao longo da viola amorosa
Pulgas e rosas vibram no luar do teu vulto
Tu que há tempos se foi...

O cão sarnento dorme...
Desbotaste a memória
Atiçaste o cão
Deste vida ao meu sonho
Por céus de ouro e púrpura raiados
Tons suaves da melancolia
E eu ti peço: não rias!
Pois o cão sarnento dorme...
Dorme...

Dorme! Dorme, cão sarnento
Eu planejo a minha fuga
Sem lamentos
Sem rugas
Sem sonho inventado
Apenas penso em partir
Mas não rias!
Pois o cão sarnento dorme
Sem títulos
Sem uniforme.

Galdino Barreto - Breu, O lado escuro de um poema.

Poeta: Galdino Barreto - Sopinha

Se, tu ao menos visses
A dor do meu peito inflamado
Entenderias o porquê do barulho da chuva...

Se as tuas mãos
De dedos em luva
Tocassem as feridas que sangram
Entenderias o porquê do meu grito...

E quem falou que eu quero o teu corpo?
Se o meu alimento
É teu amor...


Galdino Barreto - Breu, O lado escuro de um poema.

Poeta: Galdino Barreto - Gravata


Se os vermes não mais
me acompanharem
E se só levarei
O que aqui deixar...
De que me adianta correr
Se partirei como um cão faminto
E só em minha Lápide fria abrigo seguro terei

Quando as minhas mãos fracas
Agarrarem somente o que elas puderem empunhar
Ficará só uma simulação do fim da carreira
Um esqueleto débil...
Um túmulo sem reboco
Vermes saciados.

Galdino Barreto - Breu, O lado escuro de um poema.

domingo, 14 de agosto de 2011

Poeta: Mario Quintana - Eu escrevi um poema triste

Eu escrevi um poema triste

Eu escrevi um poema triste
E belo, apenas da sua tristeza.
Não vem de ti essa tristeza
Mas das mudanças do Tempo,
Que ora nos traz esperanças
Ora nos dá incerteza...
Nem importa, ao velho Tempo,
Que sejas fiel ou infiel...
Eu fico, junto à correnteza,
Olhando as horas tão breves...
E das cartas que me escreves
Faço barcos de papel!

Mario Quintana
(1904-1996)

Poeta: Mario Quintana - Eu fiz um poema

Eu fiz um poema

Eu fiz um poema belo
e alto
como um girassol de Van Gogh
como um copo de chope sobre o mármore
de um bar
que um raio de sol atravessa
eu fiz um poema belo como um vitral
claro como um adro...
Agora
não sei que chuva o escorreu
suas palavras estão apagadas
alheias uma à outra como as palavra de um dicionário.
Eu sou como um arqueólogo decifrando as cinzas de uma cidade morta.
 O vulto de um velho arqueólogo curvado sobre a terra...
Em que estrela, amor, o teu riso estará cantando?

Mario Quintana
(1906-1994)

Poeta: Mario Quintana - Vida

Vida

Não sei
o que querem de mim essas árvores
essas velhas esquinas
para ficarem tão minhas só de as olhar um momento.

Ah! se exigirem documentos aí do Outro Lado,
extintas as outras memórias,
só poderei mostrar-lhes as folhas soltas de um álbum de imagens:
aqui uma pedra lisa, ali um cavalo parado
ou
uma
nuvem perdida,
perdida...

Meu Deus, que modo estranho de contar uma vida!.

Mario Quintana
(1906-1994)

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Poeta: Gonçalves Dias - Seus Olhos

Seus olhos são negros, tão belos, tão puros, de vivo luzir,
estrelas incertas, que as águas dormentes do mar vão ferir;

seus olhos tão negros, tão belos, tão puros, têm meiga expressão,
mais doce que a brisa, - mais doce que a frauta quebrando a soidão.

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros, de vivo luzir,
são meigos infantes, gentis, engraçados brincando a sorrir.

São meigos infantes, brincando, saltando em jogo infantil,
inquietos, travessos; - causando tormento,
com beijos nos pagam a dor de um momento, com modo gentil.

Deus olhos tão negros, tão belos, tão puros, assim é que são;
às vezes luzindo, serenos, tranquilos, às vezes vulcão!

Às vezes, oh! sim, derramam tão fraco, tão frouxo brilhar,
que a mim me parece que o ar lhes falece,
e os olhos tão meigos, que o pranto umedece, me fazem chorar.

Assim lindo infante, que dorme tranquilo, desperta a chorar;
e mudo e sisudo, cismando mil coisas, não pensa - a pensar.


Nas almas tão puras da virgem, do infante, às vezes do céu
cai doce harmonia duma harpa celeste,
um vago desejo; e a mente se veste de pranto com um véu.

Quer sejam saudades, quer sejam desejos da pátria melhor;
eu amo seus olhos que choram sem causa um pranto sem dor.

Eu amo seus olhos tão negros, tão puros, de vivo fulgor;
seus olhos que exprimem tão doce harmonia,
que falam de amores com tanta poesia, com tanto pudor.

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros, assim é que são;
eu amo esses olhos que falam de amores com tanta paixão.


Gonçalves Dias

Poeta: Vinícius de Moraes - O amor dos homens

Na árvore em frente
Eu terei mandado instalar um alto-falante com que os passarinhos
Amplifiquem seus alegres cantos para o teu lânguido despertar.
Acordarás feliz sob o lençol de linho antigo
Com um raio de sol a brincar no talvegue de teus seios
E me darás a boca em flor; minhas mãos amantes
Te buscarão longamente e tu virás de longe, amiga
Do fundo do teu ser de sono e plumas
Para me receber; nossa fruição
Será serena e tarda, repousarei em ti
Como o homem sobre o seu túmulo, pois nada
Haverá fora de nós. Nosso amor será simples e sem tempo.
Depois saudaremos a claridade. Tu dirás
Bom dia ao teto que nos abriga
E ao espelho que recolhe a tua rápida nudez.
Em seguida teremos fome: haverá chá-da-índia
Para matar a nossa sede e mel
Para adoçar o nosso pão. Satisfeitos, ficaremos
Como dois irmãos que se amam além do sangue
E fumaremos juntos o nosso primeiro cigarro matutino.
Só então nos separaremos. Tu me perguntarás
E eu te responderei, a olhar com ternura as minhas pernas
Que o amor pacificou, lembrando-me que elas andaram muitas léguas de mulher
Até te descobrir. Pensarei que tu és a flor extrema
Dessa desesperada minha busca; que em ti
Fez-se a unidade. De repente, ficarei triste
E solitário como um homem, vagamente atento
Aos ruídos longínquos da cidade, enquanto te atarefas absurda
No teu cotidiano, perdida, ah tão perdida
De mim. Sentirei alguma coisa que se fecha no meu peito
Como pesada porta. Terei ciúme
Da luz que te configura e de ti mesma
Que te deixas viver, quando deveras
Seguir comigo como a jovem árvore na corrente de um rio
Em demanda do abismo. Vem-me a angústia
Do limite que nos antagoniza. Vejo a redoma de ar
Que te circunda - o espaço
Que separa os nossos tempos. Tua forma
É outra: bela demais, talvez, para poder
Ser totalmente minha. Tua respiração
Obedece a um ritmo diverso. Tu és mulher.
Tu tens seios, lágrimas e pétalas. À tua volta
O ar se faz aroma. Fora de mim
És pura imagem; em mim
És como um pássaro que eu subjugo, como um pão
Que eu mastigo, como uma secreta fonte entreaberta
Em que bebo, como um resto de nuvem
Sobre que me repouso. Mas nada
Consegue arrancar-te à tua obstinação
Em ser, fora de mim - e eu sofro, amada
De não me seres mais. Mas tudo é nada.
Olho de súbito tua face, onde há gravada
Toda a história da vida, teu corpo
Rompendo em flores, teu ventre
Fértil. Move-te
Uma infinita paciência. Na concha do teu sexo
Estou eu, meus poemas, minhas dores
Minhas ressurreições. Teus seios
São cântaros de leite com que matas
A fome universal. És mulher
Como folha, como flor e como fruto
E eu sou apenas só. Escravizado em ti
Despeço-me de mim, sigo caminhando à tua grande
Pequenina sombra. Vou ver-te tomar banho
Lavar de ti o que restou do nosso amor
Enquanto busco em minha mente algo que te dizer
De estupefaciente. Mas tudo é nada.
São teus gestos que falam, a contração
Dos lábios de maneira a esticar melhor a pele
Para passar o creme, a boca
Levemente entreaberta com que mistificar melhor a eterna imagem
No eterno espelho. E então, desesperado
Parto de ti, sou caçador de tigres em Bengala
Alpinista no Tibet, monje em Cintra, espeleólogo
Na Patagônia. Passo três meses
Numa jangada em pleno oceano para
Provar a origem polinésica dos maias. Alimento-me
De plancto, converso com as gaivotas, deito ao mar poesia engarrafada, acabo
Naufragando nas costas de Antofagasta. Time, Life e Paris-Match
Dedicam-me enormes reportagens. Fazem-me
O "Homem do Ano" e candidato certo ao Prêmio Nobel.
Mas eis comes um pêssego. Teu lábio
Inferior dobra-se sob a polpa, o suco
Escorre pelo teu queixo, cai uma gota no teu seio
E tu te ris. Teu riso
Desagrega os átomos. O espelho pulveriza-se, funde-se o cano de descarga
Quantidades insuspeitadas de estrôncio-90
Acumulam-se nas camadas superiores do banheiro
Só os genes de meus tataranetos poderão dar prova cabal de tua imensa
Radioatividade. Tu te ris, amiga
E me beijas sabendo a pêssego. E eu te amo
De morrer. Interiormente
Procuro afastar meus receios: "Não, ela me ama..."
Digo-me, para me convencer, enquanto sinto
Teus seios despontarem em minhas mãos
E se crisparem tuas nádegas. Queres ficar grávida
Imediatamente. Há em ti um desejo súbito de alcachofras. Desejarias
Fazer o parto-sem-dor à luz da teoria dos reflexos condicionados
De Pavlov. Depois, sorrindo
Silencias. Odeio o teu silêncio
Que não me pertence, que não é
De ninguém: teu silêncio
Povoado de memórias. Esbofeteio-te
E vou correndo cortar o pulso com gilete-azul; meu sangue
Flui como um pedido de perdão. Abres tua caixa de costura
E coses com linha amarela o meu pulso abandonado, que é para
Combinar bem as cores; em seguida
Fazes-me sugar tua carótida, numa longa, lenta
Transfusão. Eu convalescente
Começas a sair: foste ao cabeleireiro. Perscruto em tua face. Sinto-me
 Traído, deliquescente, em ponto de lágrimas. Mas te aproximas
Só com o casaco do pijama e pousas
Minha mão na tua perna. E então eu canto:
Tu és a mulher amada: destrói-me! Tua beleza
Corrói minha carne como um ácido! Teu signo
É o da destruição! Nada resta
Depois de ti senão ruínas! Tu és o sentimento
De todo o meu inútil, a causa
De minha intolerável permanência! Tu és
Uma contrafação da aurora! Amor, amada
Abençoada sejas: tu e a tua
Impassibilidade. Abençoada sejas
Tu que crias a vertigem na calma, a calma
No seio da paixão. Bendita sejas
Tu que deixas o homem nu diante de si mesmo, que arrasas
Os alicerces do cotidiano. Mágica é tua face
Dentro da grande treva da existência. Sim, mágica
É a face da que não quer senão o abismo
Do ser amado. Exista ela para desmentir
A falsa mulher, a que se veste de inúteis panos
E inúteis danos. Possa ela, cada dia
Renovar o tempo, transformar
Uma hora num minuto. Seja ela
A que nega toda a vaidade, a que constrói
Todo o silêncio. Caminhe ela
Lado a lado do homem em sua antiga, solitária marcha
Para o desconhecido - esse eterno par
Com que começa e finda o mundo - ela que agora
Longe de mim, perto de mim, vivendo
Da constante presença da minha saudade
É mais do que nunca a minha amada: a minha amada e a minha amiga
A que me cobre de óleos santos e é portadora dos meus cantos
A minha amiga nunca superável
A minha inseparável inimiga.

Vinicius de Moraes
(1913-1980)

Poeta: Fernando Pessoa - Para onde vai a minha vida, e quem a leva?

Por que faço eu sempre o que não queria?
Que destino contínuo se passa em mim na treva?
Que parte de mim, que eu desconheço, é que me guia?

O meu destino tem um sentido e tem um jeito,
A minha vida segue uma rota e uma escala
Mas o consciente de mim é o esboço imperfeito
Daquilo que faço e sou: não me iguala

Não me compreendo nem no que, compreendendo, faço.
Não atinjo o fim ao que faço pensando num fim.
É diferente do que é o prazer ou a dor que abraço.
Passo, mas comigo não passa um eu que há em mim.

Quem sou, senhor, na tua treva e no teu fumo?
Além da minha alma, que outra alma há na minha?
Por que me destes o sentimento de um rumo,
Se o rumo que busco não busco, se em mim nada caminha

Senão com um uso não meu dos meus passos, senão
Com um destino escondido de mim nos meus atos?
Para que sou consciente se a consciência é uma ilusão?
Que sou entre quê e os fatos?

Fechai-me os olhos, toldai-me a vista da alma!
Ó ilusões! Se eu nada sei de mim e da vida,
Ao menos eu goze esse nada, sem fé, mas com calma,
Ao menos durma viver, como uma praia esquecida..."

Fernando Pessoa
(1888-1935)