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sábado, 5 de maio de 2012

Poesia: Sophia de Mello Breyner - Não se perdeu



 Não se perdeu nenhuma coisa em mim.
 Continuam as noites e os poentes
 Que escorreram na casa e no jardim,
 Continuam as vozes diferentes
 Que intactas no meu ser estão suspensas.
 Trago o terror e trago a claridade,
 E através de todas as presenças
 Caminho para a única unidade.

Poesia: Sophia de Mello Breyner - Se tanto me dói que as coisas passem



 Se tanto me dói que as coisas passem
 É porque cada instante em mim foi vivo
 Na busca de um bem definitivo
 Em que as coisas de Amor se eternizassem

domingo, 29 de abril de 2012

Poesia: Sophia de Mello Breyner - Espero




 Espero sempre por ti o dia inteiro,
 Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
 O nevoeiro
 E há em todas as coisas o agoiro
 De uma fantástica vinda.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Poesia: Sophia de Mello Breyner - Porque



 Porque os outros se mascaram mas tu não
 Porque os outros usam a virtude
 Para comprar o que não tem perdão
 Porque os outros têm medo mas tu não.

 Porque os outros são os túmulos caiados
 Onde germina calada a podridão
 Porque os outros se calam mas tu não.

 Porque os outros se compram e se vendem
 E os seus gestos dão sempre dividendo.
 Porque os outros são hábeis mas tu não.

 Porque os outros vão à sombra dos abrigos
 E tu vais de mãos dadas com os perigos
 Porque os outros calculam mas tu não.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Poesia: Sophia de Mello Breyner - Meditação do Duque de Gandia sobre a morte de Isabel de Portugal




 Nunca mais
 A tua face será pura, limpa e viva
 Nem o teu andar como onda fugitiva
 Se poderá nos passos do tempo tecer.
 E nunca mais darei ao tempo a minha vida.

 Nunca mais servirei Senhor que possa morrer.
 A luz da tarde mostra-me os destroços
 Do teu ser. Em breve a podridão
 Beberá os teus olhos e os teus ossos
 Tomando a tua mão na sua mão.

 Nunca mais amarei quem possa viver
 Sempre.
 Porque eu amei como se fossem eternos
 A glória, a luz e o brilho do teu ser,
 Amei-te em verdade e transparência
 E nem sequer me resta a tua ausência,
 És um rosto de nojo e negação
 E eu fecho os olhos para não te ver.

 Nunca mais servirei Senhor que possa morrer.

Poesia: Sophia de Mello Breyner - Pudesse eu



 Pudesse eu não ter laços nem limites
 Oh vida de mil faces transbordantes
 P'ra poder responder aos Teus convites
 Suspensos na surpresa dos instantes